Quinta-feira, Agosto 14, 2008
estou sozinha e sinto-me apodrecer.
em cada dia, a solidão entranha-se em mais um poro. sinto-me tão acompanhada pela solidão que me esqueço dela.
perdi-o. perdi o meu coração. no lugar dele, apenas ar, uma cova na pele, ossos desfeitos, suspiros perdidos, pedaços de vida(s) que se esqueceram de viver. no lugar dele, apenas ar.
coloco a minha mão no peito e nada sinto senão vazio, um buraco negro que me suga aos poucos.
estou a apodrecer.
(devaneios em tempos que passaram)
Domingo, Junho 29, 2008
Quarta-feira, Março 12, 2008
faz-se cedo. é o que as horas no teu pulso te dizem, que se faz cedo.
sempre achaste que as horas são coisas muito relativas. sempre viste o ponteiro do relógio ao contrário dos outros e o que para eles são minutos, para ti são horas que passam em instantes.
faz-se cedo. faz-se cedo e as tuas mãos estão quentes do chá que seguras, o chá que se faz frio.
faz-se frio, o chá, e faz-se cedo, o tempo.
pensas no meio de um e outro gole que tudo seria bem melhor se não houvesse tempo contado nem por contar. tudo seria bem melhor se se fizesse sempre cedo e não tarde. pensas que, tal como o chá que arrefece nas tuas mãos, o tempo faz arrefecer as pessoas, os dias. as pessoas tornam-se invernos. faz-se cedo e as pessoas fazem-se frias como o chá que está na tua chávena. pensas que é bom que se faça cedo, que a noite se estende lá fora e que já passou de meia, que nela existam pirilampos em forma de estrela que te dizem que se está a fazer cedo.
suspiras.
olhas para o relógio e para a mesa onde tens as mãos pousadas, com o chá entre elas. o frio arrepia-te o pescoço e sentes a pele eriçar-se. será que te estás a tornar fria como o chá?
abanas a cabeça como quem tenta tirar uma borboleta do cabelo. se estiveres fria como o chá, pouco se pode fazer.
levantas-te. esfregas os olhos e pegas na mala, olhas para os lados como se pudesses abarcar o resto da casa com um unico olhar e partes.
o chá está frio.
Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
Neste momento também não me interessa saber como estamos aqui.
Estou tão fria. Não sinto os dedos, não sinto as pernas, não me sinto, eu corpo, eu físico, não me sinto, não estou.
Sei que estás aqui a meu lado porque sinto a tua mão entrelaçada na minha, daquela forma que só tu sabes fazer, cruzas os teus dedos nos meus de modo a aquecer as minhas mãos que estão sempre a queixar-se por estarem frias. Cruzas os teus dedos nos meus de forma a que não se saiba onde começa a minha mão e onde acaba a tua.
Sei que estás a meu lado, mas sinto-te frio, mais frio do que o frio que me corta os movimentos. Não te mexes. És pedra a meu lado. Chamo por ti, chamo-te, grito o teu nome, sem forças grito o teu nome mas não me respondes. Tento levantar-me: cada músculo, cada tendão, cada pedaço de pele do meu corpo grita por socorro. Assustada, perdida, tento levantar-me.
A areia crava-se nas minhas mão, arranha as minhas costas, crava-se em mim, começa a fazer parte de mim. Tu és parte de mim, mais do que esta areia, mas tu não te mexes, não me respondes, não te mexes, és pedra a meu lado. Quero saber o porquê de não me responderes, diz-me porquê. Quero ouvir-te dizer está tudo bem, meu amor. Eu estou bem, meu amor, vai ficar tudo bem, meu amor.
Aos nossos pés, há mar revoltado, há mar que grita por vingança; lá ao fundo, vejo luzes amareladas de uma qualquer cidade embaciada pela chuva, de uma qualquer cidade que está longe demais, que parece terrivelmente fria nos tons quentes de um amarelo velho. À nossa volta há mais corpos, há mais pernas, há mais braços, estão todos inertes, não se movem, tal como tu, não se movem, não vivem, mas eu vivo, vivo para ver corpos molhados e inertes de olhos fixos no nada, num ponto que só eles sabem onde fica, a olhar um nada cheio de nada.
Sinto-me fria; cada gesto que faço é automático, como se tivesse sido programada por alguém superior, como se sempre tivesse estado perdida aqui, como se sempre tivesse estado gelada, como se cada pedaço de mim sempre tivesse tremido, como se sempre tivesses estado inerte a meu lado. Como se nunca me tivesses respondido quando chamo desesperadamente pelo teu nome. Responde-me, por favor, responde-me.
Levo as minhas mãos à tua cara, toco-te, ponho a minha cabeça no teu peito, não há coração a bater, não há sangue, nem vida a correr pelas tuas veias, já não há um tu. Grito, choro, sinto as minhas lágrimas correr, misturam-se com a chuva que nos bate, grito.
Responde-me, por favor, meu amor, responde-me.
Eu vivo, vivo para te ver morto a meu lado.
A minha dor é tanta que não me cabe no peito, não cabe em mim, não me cabe. É tanta que não me sinto, não sinto ar, não me sinto, não sinto as lágrimas a queimarem-me a cara, não sinto o meu grito, não sinto a minha tentativa de respirar, não te sinto, não me sinto, não nos sinto.
Tenho a minha cabeça no teu peito. Tenho esperança que abras os olhos, que me digas está tudo bem, meu amor. Eu estou bem, meu amor, vai ficar tudo bem, meu amor.
Tenho esperança que o teu olhar volte para mim, meu amor, o teu olhar, que me aquecia em noites de Inverno, meu amor.
Fecho os olhos
"(...) Nós, seres incautos, fechamos-lhe (à morte) sempre os olhos na esperança pálida de que, se não a virmos, ela não nos verá"
José Luís Peixoto
Quarta-feira, Setembro 19, 2007
Mas acho que me esqueci do lado certo da saudade.
Acho que me esqueci de mim enquanto te escrevia. Mas lembrei-me de nós.
E voltámos a viver os dois em linhas e frases, em letras e palavras. Em parágrafos desenhados por mim. Em folhas preenchidas por nós.
Escrevi-te em mim e perdi-me em ti.
Voltámos a viver em campos, voltámos a sorrir, voltámos a ser um só. Os nossos corações voltaram a bater como um só, a nossa voz voltou a ser uma só, os nossos dedos voltaram a unir-se.
Desde o dia em que partiste que vivo junto da saudade. Devia viver contigo, junto a ti, a ti. Mas é com a saudade que vivo.
Não há sonho, não há palavra, nem sopro, nem brisa que te traga de volta.
Gosto de pensar que és o vento que me envolve os ombros em noites de estrelas, vento que me envolve, é o que penso. Mas o vento não me fala nem me diz coisas bonitas. Tu dizias coisas bonitas.
Lembro-me do dia em que partiste. Escolhi apagar o dia 28 daquele mês que agora só tem 30 dias e que do dia 27 passa para o dia 29. Escolhi retirar esse dia para te escrever, para te ver no meu sonho, para te ver. Mas tu já não és. Lembro-me que olhavas para o relógio parado, cujas badaladas o pêndulo desistiu de fazer soar. Aquele balouçar que te fazia adormecer, um movimento hipnótico que te levava para longe. Longe de ti, dos teus sonhos, longe, num horizonte distante que nem tu sabes onde fica. Esse pêndulo que parou no tempo, que parou o tempo, que parou para nunca mais bater. E o tempo parou com o pêndulo, mas tu não paraste, foi o tempo que parou. Não mais respirar, não mais ver, não mais. Olhaste para mim e disseste "vou partir". Eu não percebi porquê, dizias que me amavas e eu amava-te também. "vou partir". Olhei para ti, tinha as minhas mãos pousadas sobre a saia azul que tinhamos escolhido os dois, quando saímos os dois para comprar algo para mim porque querias dar-me algo e tinhas dito que eu ficava bonita com a saia. Olhei para ti e não percebi o porquê. "vou partir". Sei que os meus lábios se crisparam por momentos e continuei a olhar para ti, e sei que os meus lábios se soltaram um do outro para sussurrar uma palavra que nem eu sei se tu percebeste de tão baixo que sussurrei.. "porquê?". Tu não respondeste, não respondeste e eu não percebi. Não respondeste, levantaste-te, pousaste os teus lábios na minha testa e eu senti uma gota de água, que mais não era do que uma lágrima que não percebia se era tua, minha ou dos dois. Levantaste-te e caminhaste, saiste e partiste de vez.
A partir desse dia, escrevi-te em palavras e viveste em palavras.
Escrevi-te do lado errado da saudade. Da saudade que tenho de ti.
Segunda-feira, Junho 18, 2007
imagens. olhas para um fotografia e vês pessoas a sorrir, pessoas que já nem reconheces; são habitantes de tempos passados, tempos idos, mas que continuam sempre a sorrir ali, mesmo que no dia a seguir a esse tenham derramado lágrimas, mesmo que já nem te lembres porque é que essas pessoas se riam assim, felizes.
riam-se e tu olhas e continuam a rir-se, congeladas num rectângulo de papel que resiste a cada ano porque se quer que esse sorriso resista também. esse pequeno papel que os faz manter jovens, manter feliz aquele momento.
não te lembras tu que nesse dia juramos amor eterno, que só não foi eterno porque um de nós partiu e não foste tu, fui eu que parti. olhas para esse rectângulo de papel e a tua garganta quase se fecha de dor porque achas que parti cedo de mais, tinha-te prometido amor eterno. mas eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te, sempre te amarei. e nesse pedaço de papel o teu olhar diz que me amas também e os teus olhos cheios de lágrimas dizem que ainda me amas, mas não percebem porque parti. lembras-te sim do dia em que acordaste com alguém frio do teu lado, face fria, rugas, pele, coração frio. meu amor, disseste tu, meu amor partiste. eu parti meu amor, parti mas estou aqui e lembro-me do dia em que juramos amor eterno, um amor que para mim vai ser eterno porque já não existo a não ser em memórias e no teu olhar, mas é eterno o meu amor.
mesmo que não te lembres do porquê, de como sorriamos, de como riamos, do que nos riamos, sabes que ali nos rimos e ali ficámos. para quem nos vê ali, teremos sempre a mesma idade e o mesmo sorrir.
estaremos sempre naquele instante. estaremos sempre naquele instante.
Domingo, Maio 13, 2007
sentir
a terra desabar no céu
azul como água de um mar
que secou por não ter um
céu como tecto e passar
a ser ele o céu dos outros.
respiração
de aves que voam
no céu que já não há
por ter secado
o céu que já não é céu
mas sim um mar que secou.
caminhos
de nuvens que se tornaram caminhos
de homens e não de aves
que agora voam em mares secos.
nuvens
de terra e caminhos
de nuvens que agora todos pisam.
já não há céu
há um mar que secou por não
ter um céu como tecto.

Palavras sem nexo, de uma noite sem sentido
